domingo, 16 de maio de 2010

Helena de troça

Helena está na fila de um banco, quando, de repente, um indivíduo, atrás da fila, se sente mal. Devido à experiência com seu marido cardíaco, tem a impressão de que o homem está tendo um enfarto. Em sua bolsa há uma cartela de medicamento, que poderia evitar o perigo de acontecer o pior.
Helena pensa: “Não sou médica – devo ou não devo medicar o doente? Caso não seja problema cardíaco – o que acho difícil -, ele poderia piorar? Piorando, alguém poderá dizer que foi por minha causa – uma curiosa que tem a pretensão de agir como médica. Dou ou não dou o remédio? O que fazer?”.
A tensão e a dúvida rasgam Helena ao meio, os poucos segundos que ela dispõe para tomar uma decisão parecem estender-se a horas. “O que eu faço? O que eu faço?”, ela repete freneticamente em pensamentos, tentando achar, desesperadamente, resquícios de lembranças sobre ocasiões semelhantes para que nelas pudesse apoiar sua decisão.
A iluminação não vem. Helena observa agora desesperada, o homem ajoelhar-se e apoiar uma mão no chão e outra no peito, desfalecente, em abomináveis grunhidos de dor. “Meu Deus! Vai morrer”, pensa Helena, que mais por instinto do que por decisão tomada, corre até o homem. Sem pensar, e de supetão, tira comprimidos de sua bolsa e lança-os na garganta do indivíduo, ao mesmo tempo em que um médico se manifesta, gritando para que todos saiam da frente, alegando que o homem está tendo um ataque cardíaco. “Ufa! Que alívio!”, pensa Helena ao ouvir tal alegação, “Não sei o que faria se tivesse feito algo que não devia”. Ela informa ao médico que acaba de dar comprimidos cardíacos para o homem. O médico a parabeniza pelo feito heróico, tirando-lhe das mãos a cartela de comprimidos para checar a dosagem.
“Salvei a vida deste homem. Ele teria morrido aqui e agora, não fosse por mim”, ares de salvadora tomam Helena que jamais sentira tanto orgulho de si mesma. Seu momento sublime, no entanto, é interrompido por um agudo grito de dor vindo do homem no chão e um sonoro “Meu Deus” vindo do médico, que se lança sobre esse, iniciando técnicas de ressusitação. "Meu Deus, que foi que eu fiz?" pensa Helena, ao ver, caída aos pés do médico, a cartela de viagras que trazia na bolsa, junto aos medicamentos cardíacos de seu marido.

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